REFERÊNCIA 03

AUTOTERAPIA

Durval Guelfi


"NOSSOS CONFLITOS INTERIORES"

KAREN HORNEY - (Civilização Brasileira, 1974).


Pág. 26 e seguintes: "Mas o fato espantoso é que a maioria das pessoas não se dá conta deles (dos conflitos) e, por conseguinte, não os resolve por uma decisão nítida qualquer: via de regra deixam-se levar pela correnteza, ao sabor dos acontecimentos. Não sabem qual é a sua posição; fazem acomodações sem saber que as estão fazendo; estão mergulhadas em contradições, sem disso se aperceberem. "Viver conscientemente conflitos, apesar de doloroso, pode ser um dom inestimável. Quanto mais enfrentarmos nossos próprios conflitos e procurarmos nossas próprias soluções, tanto mais ganharemos em liberdade e vigor interiores. Só quando estamos dispostos a arcar com os embates é que podemos aproximar-nos do ideal de sermos o comandante de nossa própria nau. Uma tranquilidade espúria, alicerçada na inércia interior, pode ser tudo menos algo digno de inveja: ela tende a tornar-nos fracos e presa fácil de qualquer tipo de influência".


Pág. 103: "A pior desvantagem (da manutenção da imagem idealizada) é, provavelmente, a consequente alienação do eu. Não podemos suprimir ou eliminar partes essenciais do nosso eu sem nos afastarmos de nós mesmos. (....) A pessoa simplesmente vai-se esquecendo do que realmente sente, gosta, rejeita ou acredita - em suma, do que realmente é. Sem o saber, pode estar vivendo a vida de sua imagem (...) A projeção: No sentido em que é comumente aplicada, a projeção consiste em transferir a culpa e a responsabilidade para outrem.

A rejeição subjetiva: No que toca à rejeição subjetiva de inclinações ou qualidades, tal como desconfiar que existam nos outros suas próprias tendências para traição, ambição, prepotência, farisaísmo, brandura e assim sucessivamente. "O que é especialmente importante com relação a isso é ela não se aperceber de suas atitudes para consigo mesma; por exemplo, terá a impressão de que alguém está zangado com ela quando, na verdade, é ela que está zangada consigo própria. 
Ou então terá consciência da ira de outras pessoas, quando, de fato, é ela que está irada contra si mesma. 


E, mais ainda, atribuirá não só suas inquietações, mas igualmente sua boa disposição ou suas realizações, a fatores externos; enquanto seus insucessos serão encarados como decretos do destino, os sucessos serão levados à conta de circunstâncias fortuitas, seu bom humor ao estado do tempo, e assim sucessivamente. Quando alguém acha que o bem ou o mal de sua vida é decidido por outras pessoas é perfeitamente lógico que só se preocupe em modificá-las, transformá-las, puni-las, defender-se de sua interferência, ou impressioná-las. Dessa forma a externalização contribui para a subordinação a outrem, contudo uma subordinação bastante diversa da criada pela necessidade de afeto."


(Pag. 107). "Outro fruto inescapável da externalização é um penoso sentimento de vácuo e frivolidade, que tampouco é corretamente localizado. Em vez de sentir o vácuo emocionalmente, a pessoa sente um vazio no estômago e procura livrar-se dele comendo compulsivamente."

(Pag. 109). "A terceira maneira de externalizar a raiva é focalizá-la em distúrbios do próprio organismo. A ira contra o eu, quando não sentida como tal, aparentemente cria tensões físicas de gravidade considerável, que podem aparecer como doenças intestinais, dores de cabeça, cansaço, etc. É bem esclarecedor ver como todos esses sintomas desaparecem com a velocidade do raio desde que se percebe conscientemente a raiva".

(Pág. 113). A externalização é, assim, um processo ativo de auto eliminação. A razão de sua exequibilidade reside no alheamento do eu, que, de qualquer modo, é inerente ao processo neurótico. Com o eu eliminado, nada mais natural que os conflitos interiores sejam também afastados da consciência. Entretanto, tornando a pessoa mais recriminadora, vingativa e medrosa em relação aos demais, a externalização substitui os conflitos interiores por outros exteriores. Mais explicitamente, ela agrava grandemente o conflito que põe em marcha todo o processo neurótico: o conflito entre o indivíduo e o mundo objetivo".

(Pág. 119). O paciente tem de conseguir a capacidade de assumir a responsabilidade por si mesmo, na acepção de sentir-se a si próprio como a força ativa e responsável de sua vida, capaz de tomar decisões e de arcar com as consequências." Pág. 214.